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terça-feira, 5 de julho de 2016

A morte da bezerra

CC0 Public Domain - https://pixabay.com/pt/vaca-prado-vacas-grama-vila-canil-1495509/
Você chegou ao fundo do poço. Lembrando que o fundo de cada um pode ter profundidades diferentes. Pensar em fundo de poço é o mesmo que pensar em um lugar escuro, molhado, mofado, sem saída... E você está lá, sentado, abraçado às próprias pernas com a cabeça apoiada nos joelhos, lamentando, incansavelmente, pela morte da bezerra que morreu e te causou um estrago enorme. Coitadinha da bezerra.

Você está lá naquele ‘breu’ e não consegue parar de pensar na bezerrinha e do quanto ela te faz e fará falta. Você chora, sente raiva, pragueja qualquer coisa, culpa-se. Mas a bezerra não morreu por sua causa. Ela pode ter tido um pouco de desgosto por conta de alguma atitude sua, mas a morte em si foi de coisas naturais. Bezerras morrem.

É necessário lembrar-se, vez ou outra, da morte. Ela sempre vai existir, mesmo que você não goste. E essa tal morte pode ser a morte em vários outros sentidos. Morte de coisas, morte de ciclos, morte na própria aparência ou jeito de ser... Então, é importante lembrar-se dela para não ser pego desprevenido. Ainda assim, também é bom ter em mente que, mesmo prevenido, alguma coisa dentro de você ainda pode doer ao ter ciência de alguma morte. É triste, eu sei. A morte faz parte da vida. Engraçado isso. Chega a ser irônico.

Se te conforta, é bom saber que a dor sai de evidência depois de algum tempo. Mas o tempo é relativo para cada pessoa. Você pode chorar eternamente pela bezerra, mas a intensidade do choro vai diminuindo com o passar dos anos. Você se acostuma, encontra outras preocupações, começa a enxergar por outras perspectivas, muda a forma de ver o mundo e milhões de outras coisas. E a bezerra estará sempre bem acomodada no meio das suas lembranças.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Realidade?



IMG_20140810_174900[1] Foto: BR020 10/08/2014, por mim

Realidade é a realidade. Pura, das coisas da vida, cruel, sem pormenores. É aquela que move o mundo, que faz as pessoas caminharem para frente, imersas e direcionadas pelos seus objetivos. Realidade vem com toda força que deram a ela e te bate na cara com toda força, para te fazer acordar e andar sem vacilo. Ela é o real do mundo, sem metáforas, sem enfeites inventados. Sou ciente dela. Sou arrastado por ela. Mas vez ou outra reluto, enfrento, teimo, corro para o imaginário. Porque viver apenas de realidade é ser correto demais; é abraçar tudo o que é imposto, reprimindo vontades. Então eu enfio sonho no meio, corro para as ficções, vejo filmes, viajo no teto do meu quarto, crio estórias, vivo estórias. Não sei como seria o mundo sem as artes. É o meu refúgio, meu conforto, onde eu posso relaxar, posso recriar monstros gigantescos e poderes em mim para enfrentá-los. Posso esvair o amor que às vezes sobra. Posso viver infinitos finais felizes e dramatizar momentos apenas para causar mais emoção. E volto à realidade, porque alguém disse que viver só de imaginação é coisa de louco e até hoje não consegui provar que louco mesmo é quem vive apenas de realidade.

sábado, 12 de julho de 2014

Enlouqueci



Enlouqueci. E não espero que entendam. Ou que colaborem.

Quero apenas que me deixem sentir o que for.

E se não deixarem, vou sentir do mesmo jeito.

É meu e só meu!

Eu já sei que julgarão, pois sempre julgam.

 

Sei que talvez soe solitário, e contraditório, e injusto.

Mas que tenha o rótulo que quiserem dar!

Enlouqueci. Ponto. Não importa o sentido disso.

Aliás, importa para mim.

 

Escoaram todos os sentimentos, os sonhos e os desejos.

Preciso da minha loucura.

É uma questão de necessidade.

Perdi-me para me encontrar.

Enlouqueci para me tornar são.

Tornar-me-ei! Encontrar-me-ei! Só não sei quando.

 

Enlouqueci e estou bem no meio da loucura.

Porém busco a sanidade, maior, melhor.

Coloco os pingos nos is, os traços nos tês, as vírgulas e os pontos.

Procuro a razão, o conhecimento, os caminhos asfaltados.

Enfrento os medos, compreendo as incertezas, silencio o desnecessário.

Dou sentidos, retiro importâncias, esqueço.

Amo e desamo.

E cresço.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Susto



Estranho ver que meu coração ainda dispara ao topar com alguma movimentação sua. Sei que não é amor, tampouco saudade. Saudade vem de vez em quando, quase nunca. É muito estranho. Talvez seja apenas o susto de relembrar que você existe, depois de fazer o possível para não lembrar do que quer que seja sobre você. E isso! Foi apenas um susto. Aquela sensação que acontece no momento mais inesperado. E que já passou novamente!

bebe careta susto[7]

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Narciso e as coisas



Narciso não gostava de pessoas. Narciso gostava de coisas. Dentre as coisas, havia os móveis, os livros, as músicas, as tecnologias, as fotos, as artes... Como era fácil gostar de coisas. Não importava ele o que fosse. Coisas não causavam medo. Coisas não julgavam. Coisas não faziam mal. E o que sentia por elas não fazia diferença alguma. Podia sentir o que fosse sem consequências. E ele conversava com as coisas quando ninguém via. Ainda que as coisas nunca o respondessem, ele se sentia muito bem após tais conversas. Coisas não usavam suas palavras contra ele mesmo. E coisas não distorciam o sentido de nada dito. Era extremamente fácil conviver com coisas. Narciso era claramente uma pessoa solitária e não fazia questão alguma de mudar. Estava, quase sempre, em um mundo paralelo, particular e impenetrável. Vivia entre pessoas, sem nunca conseguir gostar delas. Muitas vezes taxaram-no de louco, psicopata, problemático... “Coitado do Narciso!” Mas ele não se importava. Convivia com pessoas porque não havia outro jeito. De vez em quando tentava gostar de animais. Porém se identificava mesmo era com as coisas. Narciso não gostava de pessoas. E do seu jeito, era feliz.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Fui lá e xinguei


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Por algum motivo lembrei daquilo.
Aquilo tudo que nem importava mais ser mencionado.
Uma merda ainda ter  tudo em mente, mas enfim.
Quando lembrei, senti doer lá no fundo...
No interior do interior, na parte mais sensível e intocável.
Doía tanto que tive que me encolher, tentando sufocar a dor com um aperto.
Gritei silenciosamente por horas.
E consegui a façanha de chorar sem lágrimas. Muitas lágrimas invisíveis.

Que estranho isso! Pensei.
Que lembrança filha da puta! Sussurrei.
Que vá para a puta que a pariu! Gritei audivelmente dessa vez.
Fui lá e xinguei. Xinguei mesmo!

É feio? Foda-se!

“A maldade do palavrão está na cabeça de quem acredita nela.”

Aos pouquinhos tudo foi voltando ao normal.
E encontrei uma distração melhor.

 

“Dizer palavrões pode ajudar a aliviar a dor – mas apenas em pessoas que não xingam com frequência -, concluíram pesquisadores de uma universidade britânica.”
FONTE:
http://www.idadecerta.com.br/blog/?p=15957

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Gira mundo, gira



O mundo gira. O mundo gira sempre, sem nunca parar. E as coisas sempre acontecem, mesmo quando você para por algum motivo pessoal. Você parou e não o mundo. Do mundo mesmo, só Deus sabe. 

Algumas vezes você será bom e esse bom viajará por vários lugares, por várias pessoas. Será um bom estampado em paredes quaisquer, ou transmitido midiaticamente. Contudo, o mundo vai continuar girando e, repentinamente, você será ruim. Será ruim por conta de um passo errado, pelos seus próprios olhos, pela língua alheia, por um ‘não’ dado depois de tantos ‘sim’ ou, simplesmente, porque era pra ser. Mas um dia, talvez, você poderá ser bom de novo. 

Algumas vezes você vai girar junto com o mundo, sem sequer notar. Quando notar, já terá cabelos onde não tinha e falta deles em outros lugares. Verá que as linhas não são mais tão retas como costumavam ser, porém você está mais cuidadoso ao traçá-las. Você vai sentir saudade de você mesmo, daquele jeito divertido. Vai sentir saudade da quantidade de bons momentos que conseguiu agindo sem pensar, já que hoje você pensa demais. Pensar mais acabou sendo necessário. Você mudou, não é? Ainda que sem intenção. 

E você, que antes só se atentou com o passar dos anos quando quis chegar logo aos dezoito, hoje, queria conseguir voltar no tempo ou conseguir pará-lo. Mas acontece que o mundo gira e gira sem parar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Depois


Depois

Depois da presença provocada
Das conversas de fácil continuidade
Das trocas de olhares
Dos sorrisos

Depois da naturalidade do toque
Dos beijos roubados
Dos abraços inteiros ou pela metade
Do sexo por qualquer motivo

Depois da intensidade
Das frases bonitinhas
Das juras de amor
Dos planos a curto e longo prazo

Depois da saudade
Do cheiro bom que ficou na roupa
Da vontade de estar perto a toda hora
Da vontade de fugir junto

Depois das brigas
Dos desentendimentos idiotas
Das reconciliações
Do amor com arestas aparadas

Depois de brincar seriamente com a sinceridade
De todo sentimento verdadeiro
Do deixar acontecer
Do querer bem

Depois...
Do depois...
Do depois que acaba
Do tempo que passa e tudo é início de novo.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Aquela dor

Doer, sempre dói. Para mudar algo com vontade é necessário fazer sacrifícios. Como disse a Martha Medeiros:

"Quando fazemos uma escolha, qualquer escolha, estamos dizendo sim para um lado e dizendo não para o outro. Então, algum sofrimento sempre vai haver."

Aí vem aquela vontade de correr para não se sabe onde. Vontade de ficar encolhido em uma cama abraçando o travesseiro com toda força. Vem a sensação de ter levado vários socos fortes no estômago. E vem também o sentimento de ter sido feito em pedaços, pequenos e difíceis de juntar.

E você pensa, pensa, pensa... Pensa tanto que não se concentra em mais nada por algum tempo. É a sua dor. É o seu luto. E não importa o quanto te digam que tudo vai melhorar logo, você tem o seu tempo diferente de todos os outros. Como se estivesse marcado em algum cronômetro invisível com o seu nome. Não houve uma receita exata do que fazer. Você misturou um monte delas. De livros, artigos, músicas, conselhos...

Aí um dia, após poucos ou vários outros dias, você percebe que não dói mais. Se esqueceu ou ignorou, não importa! Você deixou de lado aquilo que não te acrescentava. Aquilo que não interessava, que atrasava, que prendia as boas sensações. Aquilo que não somava e nem impulsionava a andar para frente. E o certo mesmo talvez fosse isso: deixar de lado, desapegar-se.

O que era pra continuar sendo, continuaria sendo, independente de pedras ou flores no caminho. Não é? Muitos já parafrasearam isto.

Passado certo tempo, você se levanta e volta a viver normalmente. Aí , após uma novíssima escolha, tudo começa a doer de novo. Talvez, dessa vez, a dor tenha demorado um pouco mais para chegar. Você já tinha aprendido um pouco mais sobre as coisas. Já tinha mais bagagem. Mesmo sabendo, no início, que poderia evitar a dor, você continuou, pois tinha a esperança que acertaria mais. E você acertou bem mais, mas descobriu que há novas situações onde errar. Assim, vivendo, você enfia na cabeça que uma hora sempre vai existir dor. Ou não. Ou você faz questão de esquecer, pois é assim que se faz para voltar a viver.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Perfeição utópica

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Quis um dia ser perfeito. Só que não literalmente perfeito, sabe? Empurraram-me, certa vez, a ideia de que perfeição literal não existe. Aceitei numa boa. Aí decidi que queria ser perfeito aos olhos de quem me importava, mesmo com os meus defeitos. Ou, pelo menos, tentaria chegar o mais perto que fosse da perfeição. 

Acontece que, como parte de ser humano, vivo errando. Suponho que erro quase todos os dias. Só que, mesmo errando, durmo todas as noites com a consciência limpa e tranquila. Estou certo de que não faço mal a ninguém. Quer dizer, de vez em quando devo magoar alguém sem querer. Já entendi que, inevitavelmente, magoamos e que, também, vivem nos magoando sem intenção. Intenção é a palavra. É ela que faz todo o sentido mudar de lugar. E, no meu caso, de verdade, intenção é algo que falta. Consigo dormir sem culpa. Quase sempre.

No geral, queria ser perfeito no sentido de sempre fazer bem a quem gosto. Sei lá, tenho essa necessidade. É impossível ser perfeito, já sei, mas mantenho o meu querer de tentar ser perfeito por aqueles poucos que valem à pena. Isto está parcialmente ligado com o que me deixa feliz. É até clichê dizer, mas minha felicidade não é completa sem ter com quem compartilhá-la.

Assim, vou errando, magoando, culpando-me, mas tentando ser perfeito ainda que eu nunca seja.

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sábado, 28 de abril de 2012

Dependente




Eu estava ali neutro no meu mundo, apreciando aquele nada tão agradável e, de repente, bum! Sem pedir permissão, veio um transbordamento de sentimento de dentro para fora. Uma vontade gigantesca de dizer palavras bonitinhas e idiotas e de me expressar até esgotar a sensatez. Ser romântico e coisas do tipo.

Eu que sempre fui sensato e reservado. Sentimentos apenas com o travesseiro e olhe lá! Agora era diferente. As palavras queriam sair da minha boca a qualquer custo e serem ouvidas. Não por todos. Ok, talvez por todos, mas por hora, só por você mesmo. Que poder é esse que você tem? Explica!

Não gosto de dependência emocional. Ou melhor, nunca entendi exatamente o que é depender emocionalmente de alguém. Eu sempre fugi. É dependência sim! Chamo o gostar do que eu quiser! Sinto-me dependente. Estou dependente. Ô, céus! E você aí sem fazer absolutamente nada. Você me olha e eu te quero. Tão assim. Por quê?

– Eu te amo!
(Silêncio)
- Eu te amo!
(Silêncio)
- Eu te amo!
(Sons de grilos)
- Ahhhhhhhhhhhhhhh...

Eu amo mesmo e agora? Vou ouvir música!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Minha roseira

Certo dia resolvi plantar uma semente. Eu estava completamente animado. Era a primeira vez que plantava algo. Uma mudinha tímida começou a nascer alguns dias depois. Tão linda que eu não conseguia parar de elogiá-la. Era a mudinha mais linda da galáxia. Cuidei dela com tanto carinho, mesmo sem saber como fazer. Fui fazendo o que achava que era certo. Eu estava preocupado demais com o que as pessoas iam falar de mim naquela situação. Errei. O centro das atenções devia ter sido a mudinha que não parava de crescer. Cada dia ela crescia mais. Depois de um mês eu podia dizer que a amava. Depois de mais alguns dias ela parecia me entender. De uma hora para outra cresceu tanto que virou uma planta majestosa. Fiquei tão orgulhoso. E para melhorar um botão de rosa apareceu. Foi ai que eu descobri que se tratava de uma roseira. Mais três botões apareceram. Tornaram-se rosas vermelhas. Gigantes. Chegou um dia que eu fiquei tão seguro de mim que achei que minha roseira não precisasse mais de tanto cuidado. Ela já tinha crescido, se tornado uma linda roseira e haviam nascido rosas tão lindas. Errei de novo. Uma das rosas murchou e caiu. Chorei tanto. Voltei a cuidar, mas mesmo assim outra rosa caiu. Chorei de novo mais uma vez. Para piorar uma delas foi roubada. Encontrei o ladrão e a consegui de volta. Era muito importante pra mim. Só havia sobrado uma rosa, mas a roseira não parecia mais ser minha. Tentei redobrar o cuidado, mas as coisas não mudaram. Arranquei o último botão e dei espaço para roseira tentar se recuperar. Aparentemente era isso que ela queria. Eu não soube interpretar seus sinais e errei mais uma vez. A roseira foi perdendo suas folhas pouco a pouco. Tentei mais uma vez e mais vez, mas meus cuidados nada adiantaram. As folhas caíram todas. Os galhos e o caule perderam o verde e eu não consegui trazê-la de volta pra mim. Errei demais. Tive a esperança que na primavera ela voltasse a ser linda e majestosa, mas acho que isso acontecerá apenas se alguém com um cuidado melhor que o meu aparecer. Apesar de eu ter aprendido bastante, minha roseira deixou de ser minha.

 

Considerações:

  • Texto de 2007.
  • Apesar dos espinhos e do trabalho com os cuidados, a beleza das rosas compensam quaisquer esforços.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Sou(L)

Sou aquilo que vês.
Aquilo que a sociedade acha que permite.
Aquilo que os olhos analisam e nem sempre alcançam.
Aquilo que só eu sei ou só você poderia saber.

Sou o filho, o neto, o sobrinho, o irmão, o amigo, o amante...
A criança que cresceu.
O adolescente virando adulto.
O mais velho com cara de menino.
O maduro brincalhão.

No fundo sou muito mais que qualquer predefinição
Vou muito além das vãs proposições.
Faço mais do que poderia.
E posso ainda mais. Tanto que nem eu sei.

Se frio estou, é porque o meu redor me gela.
Se morno, porque um pouco eu já conheci.
Se quente, é porque não tenho mais medos.
Mas se merecem, ainda pego fogo.
Se não, eu fujo!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

À mercê do tempo

Derreti-me no seu beijo
Desmontei-me em seu abraço
Adormeci em um cafuné
Fui acordado com uma lambida
Empolguei-me com uma mordida
Apossei-me do seu colo
Perdi-me no seu olhar
Concentrei-me em seu sorriso
Viajei no seu perfume
Esqueci-me do resto
Resto? Que resto?

A hora passou despercebida. Muitas horas.
E você teve que ir embora.
Tempo cruel! Tempo invejoso!

 

“Será que o tempo tem tempo pra amar ou só me quer tão só?” (Móveis Coloniais de Acajú)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

E assim foi…

Ele está muito bem.
Ciente da perda, contente, porém.
Cansou de seus tormentos.
Cessou os seus lamentos.
Fez bem.

O chamaram de pobre de inteligência.
O acusavam de extrema carência.
E empurravam-no para o fundo do poço.
Eram críticas demais sobre o moço.

Ele não era culpado.
Tudo sempre fora bem racionado.
Só que dos sentimentos quem entendia?
Coisa chata, cheia de psicologia!

Ele queria qualquer verdade.
Aceitar mentiras era imaturidade.
Mas viver mentiras era muito pior.
E ele sabia que realismo era melhor.

Correspondido nunca foi fácil ser.
Diante do livre-arbítrio é conformar ou sofrer.
Pois reciprocidade não se subestima.
Ainda que o amor de si se aproxima.

Ele seguiu a vida conformado.
De que a vida não funciona como programado.
Ficou bem, pois dos problemas esqueceu.
E o sentimento involuntário, finalmente morreu.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Clichê



Sentei em uma cadeira imaginária.
Fiz-me invisível e imperceptível.
Tentando me tornar algo como um fantasma.
Viajei pelo mundo infinito dos pensamentos.
Viajei pelas vidas que não eram minhas.
Saí colhendo as informações disponíveis.
Juntando histórias e explicações para coisas simples.
Queria saciar a minha vontade de ser clichê.
Queria uma fuga sonhadora e louca da realidade.
Queria um motivo para nada.
E queria me perder temporariamente nas coisas boas que ninguém nota.
Deparei-me, acidentalmente, com um mundo cheio de cores e sons.
Encontrei a bem escondida igualdade das pessoas.
Reparei com atenção nos olhares que eram mais sinceros que palavras.
Vi abraços carinhosos e sorrisos verdadeiros.
Vi a lua gigante.
Senti o vento e um cheiro bom e desconhecido.
E parei para ouvir o barulho calmante da chuva.
Todo o resto não tinha mais importância alguma.
Enxerguei coisas que ninguém enxerga por falta de interesse.
Tive ótimas sensações apenas por permitir tê-las.
Concluí que ser clichê de vez em quando é bom.
E voltei à realidade. Mas tudo aquilo também não era real?
Dúvida pertinente.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

De olhos fechados



Era só fechar os olhos para qualquer preocupação sumir.

Aí, só abrir os braços para o vento causar um vôo raso.

Só forçar levemente o paladar para sentir um gosto doce.

Apenas iniciar um sorriso para sentir um toque terno.

E apenas olhar para cima para ganhar um abraço.

Tudo assim, livremente e facilmente.

 

Era tudo tão perfeito ainda que não houvesse perfeição em nada.

As cores combinavam com a melodia de uma música aleatória.

O sol aquecia e derretia as friezas, quaisquer fossem elas.

O cheiro instigava a nostalgia e liberava emoções escondidas.

E era possível correr sem que o cansaço chegasse.

 

Repentinamente acordei e não sabia mais como voltar a sonhar.

 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conto abstrato


De repente me percebi caminhando, mas não me lembrava de quando começara. Na minha cabeça era como se eu tivesse sido colocado ali, no meio do caminho, instigado a andar sem parar. Não havia um passado. Por mais que eu vasculhasse a minha memória nenhuma lembrança surgia, exceto as que acompanhavam os passos recentes, que não eram muitos. Estranho demais pensar em continuar caminhando sem saber o motivo, mas minhas pernas continuavam como se movidas por uma força externa.

O futuro é sempre incerto. A incerteza causa medo. O desconhecido causa mais medo ainda. Isso eu tinha em mente. Não sei porque havia começado a pensar em futuro sem sequer ter vestígios do meu passado. E só pensar em futuro não adiantaria nada. Passei, então, a prestar atenção no presente.

À medida que os passos eram dados, imagens surgiam ao meu redor. Antes era apenas o caminho. Agora havia grama, flores, árvores. Era a minha atenção sendo mais bem usada. E mais coisas apareciam. Pessoas, carros, construções. Até música comecei a ouvir. Na verdade, tudo sempre esteve ali, mas eu estive tão preocupado com o passado e em saber do futuro que nunca parei para observar. E como o presente era bonito. Ou melhor, pelo menos podia ser visto assim, se eu tivesse a intenção.

Parei para observar uma árvore torta. Muito torta, digamos. Fiquei extasiado ao ver que ela se sustentava e se “comportava” como qualquer outra árvore. Uma lembrança. Continuei a caminhar e me deparei com um carro parado e abandonado. Toda cor já havia sido corroída pelo sol e plantas nasciam por todo lado dentro dele. O que era um carro tinha se tornado um objeto, uma escultura. Outra lembrança. Andando mais um pouco escutei uma música saindo de uma casa e parecia me puxar em sua direção. Parei, fechei os olhos e comecei a ouvir. Foi como se ganhasse um cafuné. E por algum motivo inexplicável, liguei-a ao meu caminhar. Outra lembrança. Observar fazia bem e era um aditivo para a criação de lembranças.

Redobrar a atenção para o presente foi de bom grado. Devia ter pensado nisso anteriormente...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sem querer


Repito que não gosto das rimas, mas um dia eu irei me aperfeiçoar e conseguir usá-las. Estou me determinando a isso. Quero tentar compor uma música qualquer hora, ou várias.

 
 
Mais um teste...

 
 
 

Sem querer

Sem querer, sonhei.
Ao tentar fugir, pensei.
E lembrei-me do doce, do quente, da gente.
Lá na frente.

Fiquei divagando. Nem devia.
Nem ficar suspirando poesia.
Alguém, por favor, jogue água fria!
Pois não quero arrependimentos durante o dia.

Eu já sou grandinho. Moço feito.
Mesmo com meus defeitos
E ainda perdendo o jeito
Mamãe me ensinou a ser moço direito.

Meu coração quis falar
E tudo pra fora soltar
Mas do realismo me safar
Quem poderá me ensinar?

Quebrar a cara eu já aprendi.
E sei quantas vezes sofri.
Digo que nunca me arrependi.
Pois pelo menos vivi.

Foi sem querer! Quer fugir?
Foi sem querer! Quer ficar?
Foi sem querer! Quer sentir?
Foi sem querer! Vai desdenhar?

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sons no silêncio

Uma voz silenciosa grita sem que ninguém perceba

Um grito mudo meio ao silêncio ensurdecedor, vezes impenetrável.

Na vontade oculta de expressão

Vontade involuntária de sentir e não ter preocupação

Vontade de ter cada vez mais vontade

E da vontade construir castelos de cartas, de ingressos ou mesmo de copos.

 

Mas há medo. Medo do medo. Medo de ter medo. Medo de causar medo.

Medo. Palavra chata. Torna o grito ainda mais intenso em sua mudez.

Silencia os gestos mais transparentes.

E faz da boca distribuidora de racionalidade.

 

Não há falsidade. Pelo contrário! Há sinceridade em excesso.

Boas intenções e planos que nem sequer foram imaginados.

E também palavras que não foram escritas ou ditas.

Tudo preso em uma caixa sem fechadura e com pouco espaço para ideias de fuga.

Alimentando, hora ou outra, em frequências alternadas, o grito sem som.

 

O grito chega a aproximar-se, por vezes, do audível.

Porém é abafado pelo som do tempo.

Tempo autoritário que vive de inveja e passos curtos.