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domingo, 2 de novembro de 2014

Ela




Ela não gostava de ninguém
Gostava daqueles que faziam força para compreendê-la
Seu coração era grande
Mas ela o escondia dentro de uma caixa de sapatos caros

Ela amava a chuva
E pedia por chuva sempre que o céu estava limpo
Sentia-se implicitamente elogiada
Nuvens de chuva combinavam com a cor de seus olhos

Ela se sentia livre ao correr pelas ruas
Seus vizinhos chamavam-a de maluca
E quanto mais loucura lhe atribuiam,
Mais coragem tinha de fazer o que bem entendia

Ela tocava seus instrumentos musicais invisíveis
Cantarolava alto quando estava feliz
Arriscava passos de dança em ruas movimentadas
E ignorava olhares desdenhosos

Ela era linda
E sua beleza podia ser maior ou menor
Tudo dependia de sua vontade
Ou de olhos de mentes bem abertas

Ela tinha medo de toques humanos em excesso
Tinha medo de sorrisos muito fáceis
Corria de demonstrações muito intensas de afeto
E alimentava diariamente sua desconfiança

Ela sonhava sempre que podia voar
E gostava de voar acima de cidades grandes
Já tinha visitado meio mundo em sonhos
E sempre acordava com um sorriso de conquista nos lábios

Ela era destemida, quase sempre
Andava de ónibus sem rumo certo
Desenhava carinhas sorridentes por lugares que achasse bonitos
E vivia sorrindo olhando para o céu

Ela era tão feliz
Mas um dia tentou se encaixar no mundo
Foi perdendo sua loucura, dia após dia
Até que se tornou um pessoa normal

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Do ônibus



Assim que me aproximei da roleta do ônibus senti o peso de um olhar a me encarar. Olhei para atrás para ter certeza se era pra mim e sim, era. Estava sendo surpreendido naquele momento. Há tempos um olhar não tinha um peso assim. Ou eu que tinha, sei lá, sido pego desprevenido. Paguei o cobrador e entrei olhando de volta. Havia muita beleza ali pra eu passar ignorando. Olhei de volta, sem dó. Procurei um lugar próximo para sentar, mas às 18:00 é quase impossível os ônibus estarem vazios. Então peguei o banco que fosse mais estratégico, ainda assim não sendo muito feliz na opção. Percebi que o olhar tentava continuar me seguindo, mas você virar a cabeça para trás ali seria muito descaramento e não houve ação, ainda que eu torcesse para que houvesse mesmo assim. Fodam-se os outros passageiros! Eu estava preparando um sorriso para quando você olhasse novamente, porém você só tentou de canto de olho, daqueles em que evita-se ser tão óbvio. Comecei a ficar impaciente até que infelizmente a sua parada estava próxima. Você levantou, puxou a cordinha e veio passando em minha direção. Finalmente pude doar gratuitamente e de bom grado o meu sorriso mais sincero e você sorriu de volta, fazendo meu coração dar uns pulinhos de empolgação. Contudo faltou mais ação de ambas partes. Trocar celular seria extremamente fácil ali, mas creio que os dois ficaram meio abobalhados com a situação e permaneceram inertes. Você desceu do ônibus e ainda deu olhada para trás sorrindo, me deixando ainda mais feliz com aquele momento. Minutos de extrema emoção, perdidos no meio de um discurso sem palavras. Peguei o mesmo ônibus, no mesmo horário por diversas vezes e nada de reencontrar aquele olhar-sorriso. Quem sabe um dia aconteça. E da próxima vez, farei o possível para ser mais proativo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sorridente



Foto: Felipe Souza

As pessoas achavam estranho vê-lo assim, caminhando e sorrindo do nada e para o nada. Felicidade, pra muita gente, tinha que ter um motivo ou uma explicação plausível, dentro de algum contexto com sentido. Porém ele havia descoberto há algum tempo que dava pra sentir o mínimo que fosse de um bom sentimento por dia. Era possível e deveria ser obrigatório já que fazia tão bem. Situações chatas e momentos desagradáveis sempre existiriam e ele tinha isso em mente, o que era muito bom. E sua maior descoberta foi que se ele encontrasse alguma coisa qualquer pelo o que sorrir, as coisas ganhariam outra perspectiva. Era um comportamento incomum, se comparado ao resto do mundo. Os seres humanos ao seu redor não entendiam. Quer dizer, alguns conseguiam entender, outros ignoravam e outros torciam o nariz e criticavam. "Como pode ser tão sorridente?! Não deveria ser assim. Sorrir assim é coisa do passado! O mundo é outro." Mas ele era teimoso e insistia na sua descoberta. Bom para ele. Sorrir sempre tornava as coisas chatas suportáveis e, quase sempre, conseguia desmanchar carrancas. Anos passaram meio a sorrisos sem motivo, até que ele descobriu o abraço gratuito e inesperado. Desde então, tudo passara a ser sorrisos e abraços.




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Susto



Estranho ver que meu coração ainda dispara ao topar com alguma movimentação sua. Sei que não é amor, tampouco saudade. Saudade vem de vez em quando, quase nunca. É muito estranho. Talvez seja apenas o susto de relembrar que você existe, depois de fazer o possível para não lembrar do que quer que seja sobre você. E isso! Foi apenas um susto. Aquela sensação que acontece no momento mais inesperado. E que já passou novamente!

bebe careta susto[7]

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Lembrança de um último beijo



last_kiss_by_gwarf Depois de todas as conversas, queixas e concordâncias. Depois de uma recapitulação breve. O fim apareceu. Era tão triste e ao mesmo tempo tão necessário. Enfim… Mesmo com ele, saímos juntos dali ainda carregando o fio invisível da ternura e do carinho. Caminhamos em silêncio, cada um com seu turbilhão de pensamentos e alguns lamentos. Até que arrisquei um último beijo. Eu tinha que fazê-lo. Queria uma despedida que não carregasse a aparência comum de coisa ruim. E a correspondência foi linda. O coração se acelerou e as lágrimas só não caíram por pura vergonha. Percebi que você também se esforçava para não chorar. Foi um beijo para ser lembrado para sempre.

Ok, chegou a um fim e foi triste. Naquele momento eu ainda te amava. Ainda queria que todas as peças soltas do nosso quebra-cabeça voltassem a se encaixar. Queria que a nossa história ainda tivesse outros capítulos. Como eu queria consertar os nossos mundos que conseguiam ser ao mesmo tempo parecidos e tão diferentes. Queria fazer com que o amor fosse mais forte que tudo, como nos filmes ou nos livros. Mas o momento deixou de contribuir com o querer.

O nosso momento havia deixado de ser. Havia outras coisas. Havia vários nós (da vida) para desatar. Sou grato por tudo. E quero que saiba que nunca deixei de te querer bem. Espero que nossas estradas ainda se cruzem, ainda que os rótulos sejam outros. Espero um dia podermos rir disso tudo e recordar com doçura.

 

Outubro de 2012.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O pote de sorvete



Eram dias daqueles mais quentes do verão, com a temperatura acima dos trinta graus. Os corpos todos suavam em bicas e caminhar ao sol era tido como tortura. Momento oportuno para ficar com pouca roupa, para tomar no mínimo dois banhos e beber muito líquido. Momentos nos quais até quem não bebia muita água mudava de atitude.

Abençoados aqueles que tinham ar condicionado em casa e sofriam menos com o calor. Para o resto, sobravam apenas as coisas geladas, para comer, beber ou passar no corpo. Ou ainda, dependendo da loucura, eram válidas algumas ideias criativas para tentar melhorar a situação, como tomar banho de mangueira, de bacia ou quase entrar na geladeira. Nessas horas, improvisar tornava-se o verbo da vez.


E foi com as benditas coisas geladas que Juliana decidiu se refrescar. Veio nela, de repente, uma vontade louca de tomar sorvete. Lembrara-se de ter visto um pote no freezer de casa. Seus pais tinham o hábito de sempre comprar nas idas mensais ao supermercado e o que, por hora, cairia muito bem.

Assim, ela foi à cozinha, pegou uma taça, uma colher e correu à geladeira com toda gana. Agarrou o pote gelado como se fosse algo cheio de valor e levou-o para mesa junto da taça.  Ao abrir o pote, uma pequena surpresa: estava cheio de feijão. “Que porcaria! É feijão e só feijão!” Sua mãe tinha que guardar o feijão justamente no pote de sorvete, para sua infelicidade.

Para Juliana, então, restara apenas chupar um gelo, a fim de tentar se refrescar e enganar o paladar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Gosto



felicidade
Gosto do cheiro de terra molhada.
Gosto de olhar a lua e ficar observando o céu.
Gosto do barulho da chuva quando bate na janela, na hora de dormir.
Gosto de abrir os braços e fechar os olhos para sentir o vento.
Gosto de ouvir música com os olhos fechados, ou lendo suas letras.
Gosto de aumentar o volume do som e dançar sozinho pela casa ou na frente do espelho.
Gosto da dormência nos lábios causada pelo álcool.
Gosto de abrir o pote de canela apenas para sentir o cheiro.
Gosto de cantar no chuveiro e desenhar no box embaçado pelo vapor.
Gosto de enfiar o pão de queijo no iogurte e batata-frita no sorvete.
Gosto de me aventurar na cozinha e inventar molho para macarrão.
Gosto de tomar sorvete até ficar tremendo de frio.
Gosto de abrir um livro novo e sentir o cheiro das páginas.
Gosto quando leio e esqueço o mundo à minha volta.
Gosto dos filmes que me fazem sentir algo.
Gosto de ouvir tocarem violão e prestar atenção na vibração das vozes.
Gosto de olhar para os pés e mãos das pessoas.
Gosto dos sorrisos e do som das gargalhadas, mesmo as estranhas.
Gosto do arrepio que dá ao ser beijado no pescoço.
Gosto quando as conversas duram sem nenhum esforço.
Gosto de ser atencioso.
Gosto de ouvir histórias incomuns de pessoas mais velhas.
Gosto de abraçar sem ter motivo.
Gosto de sorrir para pessoas desconhecidas na rua.
Gosto de receber mensagem de madrugada.
Gosto de mandar mensagens sem nexo ou apenas por ter me lembrado da pessoa.
Gosto de ser lembrado com música; música boa!
Gosto de dizer que estou com saudades e gosto muito quando sinceramente dizem que estão com saudades.

Gosto muito do fato de conseguir ficar feliz com coisas tão efêmeras.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O desesperador



Certo dia, decidi ser responsável e fazer alguma coisa da vida que rendesse dinheiro. Com isso, nasceu a necessidade de ter que acordar cedo. Algum infeliz inventou a frase "Deus ajuda quem cedo madruga" e ela agora começava a fazer sentido na minha vida, ou pelo menos tentava fazer. "Deus, por favor, me ajuda mesmo!" 

Lá fui eu, lindo e alegre (só que não), tentar aprender a programar os meus horários e ter hora para dormir. Só que para isso, precisaria de um despertador, porque força de vontade não havia suficiente. Minha carteirinha de dorminhoco era vitalícia. Peguei o celular e programei o alarme, de lá mesmo, para tocar às 6:30 da matina, já sabendo que ensaiaria levantar e ficaria nessa até às 7:00. "Estratégia, meu filho! Ela é útil nessas horas também." Escolhi a música mais agradável que tinha na memória do celular e mandei bala.

The game has just begun.

Como previa, não consegui dormir cedo no dia anterior, porém a ansiedade pelo novo e o medo de causar má impressão no primeiro dia de trabalho, me fizeram levantar na hora com tranquilidade. Quer dizer, depois de acordar várias vezes durante a noite acreditando estar atrasado. Os dias seguintes seguiram mais ou menos da mesma forma, mas fui, aos poucos, acumulando sono pra dormir mais cedo. A primeira semana foi até tranquila.

No primeiro dia da terceira semana, começaram as falhas na estratégia... O desesperador, digo, despertador, tocou na hora e fui usando a função "soneca" de 5 minutos até não poder mais. Consequentemente, passei a aceitar a ideia de me atrasar um pouco. Um pouquinho só! Durante vários dias, mantive a linha alarme-soneca-alarme atrasando na média normalíssima de 10 minutos.

Passados alguns meses, eu já tinha certeza que o emprego era meu, o que trazia um conforto maior durante o sono. Ou seja, desastre. O despertador tocava e eu não mais ouvia e, quando ouvia, desligava sem nem notar. Acordava atrasado desejando uma morte súbita para que eu não precisasse sair da cama. Passei a ter um amor incondicional pela minha cama. Os minutos de atraso começavam, assim, a crescer exponencialmente. E chegara a hora de bolar uma nova estratégia.

Fui atrás de um novo despertador. Comprei um daqueles irritantes com som de bip. Assim, o alarme do celular continuava programado para a mesma hora, 6:30. E o de bip irritante coloquei às 6:50 e bem distante de mim, para eu ter que sair da cama para desligá-lo. Na altura do campeonato, eu odiava aquele toque do celular com todas as minhas forças. Contudo, não adiantava mudá-lo, pois também odiaria os próximos, com absoluta certeza. A estratégia, afinal de contas, estava renovada e os dias seguiram mais (in)felizes. Comecei a torcer que aquela perdurasse dessa vez. E perdurou, com a benção divina.

Certo dia, estava eu na casa de um amigo, com várias outras pessoas e, repentinamente, o celular de alguém começou a tocar com o MEU toque do alarme. Na mesma hora, o que era alegria virou sensação ruim de desespero. Vontade de encontrar o celular e destruí-lo, e dar um soco no dono. Naquele momento, eu tive a certeza que odiaria aquela música o resto da minha vida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Narciso e as coisas



Narciso não gostava de pessoas. Narciso gostava de coisas. Dentre as coisas, havia os móveis, os livros, as músicas, as tecnologias, as fotos, as artes... Como era fácil gostar de coisas. Não importava ele o que fosse. Coisas não causavam medo. Coisas não julgavam. Coisas não faziam mal. E o que sentia por elas não fazia diferença alguma. Podia sentir o que fosse sem consequências. E ele conversava com as coisas quando ninguém via. Ainda que as coisas nunca o respondessem, ele se sentia muito bem após tais conversas. Coisas não usavam suas palavras contra ele mesmo. E coisas não distorciam o sentido de nada dito. Era extremamente fácil conviver com coisas. Narciso era claramente uma pessoa solitária e não fazia questão alguma de mudar. Estava, quase sempre, em um mundo paralelo, particular e impenetrável. Vivia entre pessoas, sem nunca conseguir gostar delas. Muitas vezes taxaram-no de louco, psicopata, problemático... “Coitado do Narciso!” Mas ele não se importava. Convivia com pessoas porque não havia outro jeito. De vez em quando tentava gostar de animais. Porém se identificava mesmo era com as coisas. Narciso não gostava de pessoas. E do seu jeito, era feliz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Conto de Natal

Dezembro. Natal. Espírito natalino.
O poder do 13º salário aquecendo os bolsos, dando a sensação de serem mais fundos.
Amor. Calor familiar. Muito altruísmo ou quase isso.

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No calor do momento, ele havia andado por horas de loja em loja. Tentou ao máximo fugir do comportamento nacional de deixar para comprar tudo de última hora, mas, mesmo assim, havia as formigas e seus formigueiros. Sentiu-se como uma formiga, no meio de diversas outras. Todas atrás do maior pedaço de comida para carregar para casa. Nesse caso, todas atrás de presentes. Amigo oculto no trabalho e em casa. Lembrancinhas para os seus. Ele queria presente para a mãe, o pai, a avó, o irmão e as sobrinhas. Até o cachorro estava merecendo um osso novo esse ano; não havia rasgado nenhuma almofada.

O sentimento mais presente era o do gastar. E não podia deixar de comprar coisas novas para si. Também merecia fazer parte do lindo sentimento de renovação que o Natal e a virada de ano traziam. Assim, comprou três calças, duas bermudas, duas camisetas e um sapato novo. Sem falar nos eletrônicos.

Quanto aos presentes, conseguiu gastar apenas R$ 500,00. Uma diferença grande, em comparação ao ano passado. Será que foi mais econômico ou os preços diminuíram? Achava difícil terem diminuído, já que a tendência é sempre aumentar. Mas não havia sentido questionar quando a economia tinha sido maior. Foi um mês de ótimos gastos e logo, muita felicidade. Gastar nessa época trazia uma felicidade tamanha. Claro que ele não se esqueceu de dar algo aos pobres. Era uma das obrigações de Natal mais consideráveis, ensinadas pelos avós. Ajudou alguns; sua alma foi enriquecida. Como estava feliz com tudo aquilo!

Ele foi à missa parabenizar Jesus. Ele não devia ser esquecido. Afinal as comemorações eram para Ele. O simbolismo, mesmo que muitos não ligassem ou se esquecessem, era todo dEle. Rezou, agradeceu-O, parabenizou-O.

E chegara a hora da tão esperada ceia. Peru e farofa de seus miúdos, salpicão, frutas secas e frutas estranhas que só aparecem nessa época, pernil de porco, vinho e champanhe... Comida para todos em casa e para sobrar para o almoço do outro dia. Conversas e mais conversas sobre o ano. Lembrança dos que partiram para o andar de cima. Meia noite. Troca de presentes. Muitas meias e cuecas. Abraços e carinho familiar. Em seu pensamento, um Natal muito feliz.

 

Ironias e brincadeiras à parte, que o Natal de todos seja feliz e abençoado! Que todo o consumismo do momento consiga trazer a felicidade que o momento pede! Que seja um tempo de paz e muito amor!

Um vídeo legal, para completar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Eu não gosto de você.

Olá! Tudo bem? Comigo também. Estou iniciando esta conversa, na qual pretendo falar sem deixar você responder, para esclarecer alguns pontos. Tá certo, não é uma conversa, é um monólogo. Ah, que seja qualquer coisa! E não estou enraivecido. 

Então, gostaria de afirmar que eu não gosto de você. Acredito que seja perceptível, pois eu não sei mostrar o contrário. Mas se ainda não era, agora está claro. Não gosto de você. Já tentei gostar por diversas vezes, mas é verdade aquilo que dizem sobre ser impossível gostar de todo mundo. Infelizmente, entre você e eu foi assim. Independe de qualquer vontade, nossos olhares não se cruzaram, nossos assuntos não renderam, não houve aquela reciprocidade que deixa tudo bonitinho e agradável. 

Em consequência, se você gostou de mim em algum momento ou ainda gosta é algo que nunca me interessei em saber e continuo não interessado. Desculpe-me! É que você gostando ou não, não modifica nada na minha vida. 

Eu queria muito também enfatizar que o fato de eu não gostar de você não significa que eu te odeie. Odiar é algo muito forte e eu não te odeio mesmo. Além disso, a minha vontade de te fazer qualquer mal é zero. Não saio por aí falando mal de você, "queimando seu filme" ou coisas do tipo. Não tenho por que gastar meu tempo com isso. Indiferença é uma coisa de fácil uso e tenho certeza que com ela eu economizo um tempo enorme. Confesso que, às vezes, uso, no máximo, um pouco de sarcasmo, uma ironiazinha ou te fuzilo com o pensamento porque, convenhamos, estou longe de ser perfeito. 

Ainda assim, digo que se você estiver perto de mim, eu não vou te destratar. Se você falar comigo, eu vou te responder sem problemas. Eu fui bem educado na vida. Porém, não significa que eu goste de você. Só nunca abuse! Abusos, excessos ou coisas parecidas, tiram a paciência de qualquer pessoa educada. 

E sua opinião sobre o que acabei de falar realmente não me importa. É isso. Obrigado!


domingo, 5 de agosto de 2012

Entre olhares

Tudo começou com a vontade de fazer com que um olhar encontrasse o outro. Os dois faziam parte apenas do mundo virtual até que passaram a ansiar pelo olhar-presença, o olhar-respiração, ainda que não houvesse nunca qualquer toque ou algo ligado ao tato. Era uma curiosidade que fora construída aos poucos e que precisava ser saciada em algum momento. Assim, sem muito rodeio, uma das partes procurou, ligou, forçou um pouquinho e, após muitos papos e trocas de elogios soltos, marcaram um encontro. Combinando, antes de tudo, que seria uma coisa rápida e que não haveria, em hipótese alguma, expectativas de qualquer tipo.

Entre tantos outros olhares, finalmente, os seus se encontravam. A correspondência foi instantânea, dispensando palavras e esquecendo inclusive os gestos. Era uma explosão involuntária de sentimentos. Corações acelerados, mãos e pés frios e uma inquietude desconfortável. Acontecia uma tensão magnética ali sem que ninguém chegasse a pensar em fazer algo. Sem que tivessem ao menos se encostado.

Por ainda existir muitas incógnitas sobre suas vidas, uma fração de vergonha em ambos cortava naturalmente - vez ou outra e por curtos momentos - aquela conexão magnética. Os olhares iam para cima, para baixo, para o lado, como em fuga por não entenderem exatamente o que rolava. E se reconectavam, segundos depois. Sorrisos sem graça eram distribuídos após as palavras tímidas que saíam ao arriscar algum assunto. Sem falar nas mãos que procuravam, incansavelmente, um lugar para ficarem paradas.

Mesmo em fuga, os olhares apelavam mais para a sinceridade e a transparência do que qualquer nervosismo. Os olhares sabiam ser bem mais ousados e, combinados aos seus pensamentos, premeditavam diversas ações que as regras de etiqueta não permitiriam em hipótese alguma. Uma coisa que transcendia a moralidade e os bons costumes. Ali, a curiosidade não era finalizada e sim aumentada, em alta frequência. Os detalhes ganhavam exponencialmente um quê de mistério, uma coisa convidativa. E quem disse mesmo que nada podia acontecer?

O local não era apropriado e ambos tinham total ciência, mas nada evitou o inevitável. Não mais se contendo, atracaram-se. Colaram os lábios, entrelaçaram os braços entre os corpos com força e esqueceram-se do mundo por um instante. As sensações foram melhores do que previram, talvez porque expectativa fosse algo desprezado antes e durante aquele momento. Após alguns muitos minutos, os dois voltaram ao chão, entreolharam-se com ternura, trocam sorrisos e foram pegos novamente pelo que sobrava ainda da insistente fração de vergonha. Mas agora eram três coisas sinceras: olhares, sorrisos e beijos.

O que sairia dali nunca seria imaginado ou planejado previamente. Nem era necessário. Ambas as partes tinham curiosidade por mais detalhes suficiente para fazer com que muita coisa ainda acontecesse. E muita coisa aconteceria.

sábado, 28 de abril de 2012

Dependente




Eu estava ali neutro no meu mundo, apreciando aquele nada tão agradável e, de repente, bum! Sem pedir permissão, veio um transbordamento de sentimento de dentro para fora. Uma vontade gigantesca de dizer palavras bonitinhas e idiotas e de me expressar até esgotar a sensatez. Ser romântico e coisas do tipo.

Eu que sempre fui sensato e reservado. Sentimentos apenas com o travesseiro e olhe lá! Agora era diferente. As palavras queriam sair da minha boca a qualquer custo e serem ouvidas. Não por todos. Ok, talvez por todos, mas por hora, só por você mesmo. Que poder é esse que você tem? Explica!

Não gosto de dependência emocional. Ou melhor, nunca entendi exatamente o que é depender emocionalmente de alguém. Eu sempre fugi. É dependência sim! Chamo o gostar do que eu quiser! Sinto-me dependente. Estou dependente. Ô, céus! E você aí sem fazer absolutamente nada. Você me olha e eu te quero. Tão assim. Por quê?

– Eu te amo!
(Silêncio)
- Eu te amo!
(Silêncio)
- Eu te amo!
(Sons de grilos)
- Ahhhhhhhhhhhhhhh...

Eu amo mesmo e agora? Vou ouvir música!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Minha roseira

Certo dia resolvi plantar uma semente. Eu estava completamente animado. Era a primeira vez que plantava algo. Uma mudinha tímida começou a nascer alguns dias depois. Tão linda que eu não conseguia parar de elogiá-la. Era a mudinha mais linda da galáxia. Cuidei dela com tanto carinho, mesmo sem saber como fazer. Fui fazendo o que achava que era certo. Eu estava preocupado demais com o que as pessoas iam falar de mim naquela situação. Errei. O centro das atenções devia ter sido a mudinha que não parava de crescer. Cada dia ela crescia mais. Depois de um mês eu podia dizer que a amava. Depois de mais alguns dias ela parecia me entender. De uma hora para outra cresceu tanto que virou uma planta majestosa. Fiquei tão orgulhoso. E para melhorar um botão de rosa apareceu. Foi ai que eu descobri que se tratava de uma roseira. Mais três botões apareceram. Tornaram-se rosas vermelhas. Gigantes. Chegou um dia que eu fiquei tão seguro de mim que achei que minha roseira não precisasse mais de tanto cuidado. Ela já tinha crescido, se tornado uma linda roseira e haviam nascido rosas tão lindas. Errei de novo. Uma das rosas murchou e caiu. Chorei tanto. Voltei a cuidar, mas mesmo assim outra rosa caiu. Chorei de novo mais uma vez. Para piorar uma delas foi roubada. Encontrei o ladrão e a consegui de volta. Era muito importante pra mim. Só havia sobrado uma rosa, mas a roseira não parecia mais ser minha. Tentei redobrar o cuidado, mas as coisas não mudaram. Arranquei o último botão e dei espaço para roseira tentar se recuperar. Aparentemente era isso que ela queria. Eu não soube interpretar seus sinais e errei mais uma vez. A roseira foi perdendo suas folhas pouco a pouco. Tentei mais uma vez e mais vez, mas meus cuidados nada adiantaram. As folhas caíram todas. Os galhos e o caule perderam o verde e eu não consegui trazê-la de volta pra mim. Errei demais. Tive a esperança que na primavera ela voltasse a ser linda e majestosa, mas acho que isso acontecerá apenas se alguém com um cuidado melhor que o meu aparecer. Apesar de eu ter aprendido bastante, minha roseira deixou de ser minha.

 

Considerações:

  • Texto de 2007.
  • Apesar dos espinhos e do trabalho com os cuidados, a beleza das rosas compensam quaisquer esforços.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Uns e outros

Uma mania sem fim de tentar encontrar razão para tudo, até para coisas sem explicação. Uma indispensabilidade de compreensões. Uma mente incansavelmente pensante. Uma idéia vã de querer juntar um mais um e criar mil. Um desejo incontrolável de desejar. Uma ingenuidade idiota sobre obviedades. Uma surdez para conselhos pertinentes. Um comodismo tolo. Um perfeccionismo exagerado. Uma necessidade de consertar o mundo. Uma vontade constante de mudar, mudar e mudar. Uma vontade de abrir os braços e sair voando. Uma vontade de sair andando, correndo, clamando, gritando, maldizendo e abençoando. Uma variação incessante de humor. Uma frieza, um calor. Um ser meio a outros bilhões de seres. Uma mistura de muitos conceitos, adjetivos e verbos. Uma agitação, inquietação e seus sinônimos, muitos dos sinônimos. Uma “viagem”. Uma vida inteira pela frente…

sexta-feira, 2 de março de 2012

Um quase reencontro

Ele sempre foi um cara muito legal. Era bastante divertido conversar e passar certo tempo diariamente com ele, porém nunca chegamos a ser amigos de verdade. Amigos de verdade sabem tudo um do outro, conhece a família um do outro e coisas assim. No nosso caso, não sabíamos quase nada e um aprofundamento nos detalhes da vida nunca chegou a acontecer. Nunca tentamos e nem pensamos em passar daquela linha-limite traçada inconscientemente. Não era importante para mim e, provavelmente, nem para ele.
As circunstâncias ao nosso redor nos uniam temporariamente, mas nossos interesses gerais não caminhavam na mesma estrada. Eu gostava de azul, ele de rosa. Ainda assim, vivemos e curtimos muito daquilo que aconteceu ali e pronto. O agradável vínculo de pouca profundidade acabou no tempo devido e cada um seguiu seu caminho sem qualquer despedida ou troca de contatos. O tempo foi passando e sua existência mal fora lembrado com o passar dos anos. A saudade quase não chegou a bater à porta. Um tanto previsível. E a vida seguiu seu curso.
Contudo, um reencontro - quando se mora na mesma cidade e esta não é tão grande – nunca é algo impossível. E assim aconteceu...
 
 
Vínhamos os dois em direções contrárias e, após um pequeno momento de reflexão sobre a cara um do outro, nos reconhecemos mutuamente. Eu quis, a todo custo, mudar de direção ou fingir que não tinha o visto, mas era tarde demais. Importante frisar que não era má intenção da minha parte. A vontade de fugir dali veio do querer evitar a fadiga de ter que resumir toda aquela lacuna que havia surgido com a nossa falta de convivência. Ter que contar tudo o que eu tinha feito desde o nosso último dia de presença compartilhada. Essas coisas dão preguiça, principalmente quando não são planejadas. Tanta gente faz isso.
Assim, pensei rápido com meus botões e enfiei na cabeça que eu não era obrigada a resumir minha vida ali em poucos segundos. Não tinha por quê. E não tinha por que ele ter que contar o que quer que fosse sobre ele também. Poderíamos combinar um dia só para isso, ou não.
Cumprimentei-o cordialmente torcendo para ele ter pensado como eu e por sorte, ou sabe-se lá o quê, foi bem o que aconteceu. Ele cumprimentou de volta, rolou um “Tudo bem?” respondido por ambos e só. Porém, saí daquela situação imaginando se gostaria de conviver novamente com ele, se a vida que tínhamos atualmente deixaria que isso acontecesse. Ter pessoas legais ao nosso redor nunca é demais, mas também rolava aquela dúvida se ele continuava o mesmo. As pessoas mudam né? Eu mudei. Mas enfim.
Na primeira oportunidade que tive o procurei nas redes sociais e mandei uma mensagem perguntando aquilo que evitei anteriormente. Foi legal reaver um bom papo, mas nossos mundos eram outros agora e o “amigo” tornou-se apenas “amigo virtual”. Pelo menos agora compartilhávamos o mesmo gosto musical, o que me deixava feliz e mantínhamos a facilidade de continuar discutindo assuntos relevantes sobre o mundo. E só também.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Conversa rápida


- A gente sempre fica bem.
- Mas a gente fica com medo que demore, né?
- Isso não dá pra controlar.
- Tomara que seja sempre rápido. 
- Tomara mesmo!




quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

À mercê do tempo

Derreti-me no seu beijo
Desmontei-me em seu abraço
Adormeci em um cafuné
Fui acordado com uma lambida
Empolguei-me com uma mordida
Apossei-me do seu colo
Perdi-me no seu olhar
Concentrei-me em seu sorriso
Viajei no seu perfume
Esqueci-me do resto
Resto? Que resto?

A hora passou despercebida. Muitas horas.
E você teve que ir embora.
Tempo cruel! Tempo invejoso!

 

“Será que o tempo tem tempo pra amar ou só me quer tão só?” (Móveis Coloniais de Acajú)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Lamentos de um não-correspondido


Já vi tanta gente passando por isso... Contudo, bom lembrar que sofrimento também tem fim.



Quisera eu ter toda culpa do mundo pelo que sinto. E no final bastasse ter todo o poder para deixar o sentimento de lado. Pois não o quero! Não queria senti-lo. Mas não é bem assim. É tudo involuntário demais. E posso estar sempre interpretando errado, ou não. Sei lá!

Quando meus olhos encontram os seus parece que uma ligação magnética acontece instantaneamente. Há um brilho diferente, um sentimento que parece ficar sempre reprimido de ambos os lados. E eu não quero mais olhar nos seus olhos. Tenho medo. Não quero te abraçar, porque seu cheiro me faz querer abraçar mais forte e querer ficar deitado no seu ombro. Não quero conversar com você, pois sei que o nosso papo combina tanto que ficaríamos horas conversando e depois eu sairia com a dor da saudade.

Eu não te tenho mais ao meu alcance do jeito que eu gostaria e sei que não devo tentar te alcançar nunca mais. Seria absurdo e errado depois de ter aceitado o fim e ficado calado no meu mundo. E mais errado ainda pelos acontecimentos posteriores. Mas que culpa eu tenho de estar assim? Eu não decidi nada. Tive que aceitar calado e concordar, porque reciprocidade não se cobra.

E talvez o motivo dessa coisa chata e demorada seja porque eu nunca entendi bem o que realmente aconteceu. Já me culpei de todas as maneiras tentando encontrar o motivo certo e ao mesmo tempo inventei na minha cabeça histórias absurdas sobre você para tentar te odiar. Porém minha admiração não mudou.

E você quis continuar parte da minha vida, mas não podia ser. Ainda não pode. Quem sabe um dia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Construção

Começamos uma amizade porque normalmente é assim no início, mas confesso que meu interesse sempre fora outro. Claramente meu olhar e meu tratamento sempre tiveram um carinho a mais, ainda que eu nada falasse. (Meu olhar sempre me entregou na vida. Era só parar e interpretá-lo.) Por causa dos amigos que tínhamos em comum, hora ou outra nos encontrávamos. Era sempre muito agradável, mas eu queria mais. Precisava satisfazer aquela vontade que ia além de amizade, mesmo sem pretensões de coisas sérias. Juntei toda coragem possível, acrescentei um pouco de álcool e fui arriscar um papo com segundas, terceiras e até quartas intenções. Levei um “fora”, o que eu instintivamente já esperava. Não me abalei. Lamentei por alguns dias e fiquei bem. Seguimos com a vida e com a amizade, como devia ser. E um adicional de proximidade surgiu e começamos a sair juntos quase sempre. Tínhamos muita coisa em comum e isso ajudava bastante no crescente número de encontros e programas realizados juntos. Algum tempo se passou.

(...)

Em um dia de festa, bebemos bastante, dançamos como loucos e para minha surpresa percebi um olhar diferente vindo em minha direção. Tinha certeza que aquilo não vinha da nossa amizade. Não podia. Havia um brilho a mais, mas como o “fora” anterior ainda mantinha-se na minha memória, não perguntei e nada fiz. E se assim fosse, eu não era mais responsável por iniciativa alguma. A noite chegou ao fim e fomos para casa, separadamente. Enquanto dirigia curtindo minhas músicas de pensar na vida, escuto o toque de mensagem no celular.

“À primeira vista realmente não houve interesse. Amizade era a única coisa possível e eu dispensei você. Contudo nossa convivência manifestou características suas que me conquistaram profundamente. Algo despertou. Quero você!”

Meu Deus, eu realmente tinha lido aquilo? Eu quis tanto a correspondência de interesses e tive que aceitar o não. Após aquele “toco” me obriguei a conformar com apenas a amizade. Por várias vezes foi estranho ver beijos alheios em nossas saídas e depois de ter aceitado sermos apenas amigos recebo esta mensagem? Não! Eu ainda tinha certo interesse, mas agora também havia orgulho. Parei o carro no acostamento e comecei a divagar. Lembrei-me das pessoas sempre dizerem que perderam ótimas oportunidades por orgulho e similaridades. E de fato eu não tinha nada a perder, apenas ganhar. Eu havia conquistado alguém que eu já tivera interesse. E isso era bom. Calei meus pensamentos e respondi a mensagem:

“Não entre em casa! Espere no carro. Estou chegando agora onde você está.”

Foi algo intenso e totalmente compatível. Melhor do que eu já cheguei a imaginar. E como era bom sentir uma correspondência, uma reciprocidade, ainda que existisse uma insegurança do que acontecia ali naquele momento. Contudo, eu não ia fugir e muito menos cobrar alguma coisa. A vida já tinha me ensinado o bastante para saber que expectativas demais estragam qualquer coisa. Eu iria curtir aquilo e tudo que viesse até não poder mais. Foda-se o futuro seja ele como fosse! Questionei-me algumas vezes sobre o tempo certo para as coisas acontecerem, mas de que isso importava? Era apenas uma curiosidade sobre coisas da vida, ainda que fosse óbvio que a vida nunca segue uma linha reta. De qualquer forma, a parte melhor já estava acontecendo. Estávamos juntos.